sexta-feira, 2 de julho de 2010

Até que a tela nos separe.


Nietzsche, em “Para além do bem e do mal,” já sugere: ”Falar muito de si mesmo pode ser também um jeito de se esconder”. Completo que, o silêncio desmedido pode também ser um pedido de socorro latente.

Durante um tempo de pensamentos nada amigáveis, fiquei a pensar se continuava ou não este blog. Não que a minha vontade fosse realmente esta. Foi algo assim, meio como uma depressão: vai se instalando aos poucos e quando nos damos conta, já se apoderou de nós.

É que eu passei a ser perseguida por uma censura interna que nada tinha a ver comigo mesma. Cobranças afetivas e excesso de críticas intimidativas. Então fui vestindo um véu de anulação e prevendo o que cada palavra poderia causar. E isso trava. Apaga. Exclui a palavra. Uma chatice para quem gosta de escrever e sente que a escrita deve fluir naturalmente, no caso, eu.

Associada a este problema, a situação a que chamei de “crise da maternidade” me faz desfocar de mim mesma. Se você não é mãe, talvez nem entenda sobre o que estou falando, mas vou tentar esclarecer as coisas:

Ter um filho projeta a mulher para fora de si.

Quem acompanha o blog e/ou me conhece pessoalmente, sabe que tenho uma filha que não mora comigo no momento, e que mantenho (tento) manter um relacionamento amigável-afetivo com o pai dela. E sabe também que eu sempre fui a metade da relação que lida melhor com a distância. Sempre estive aqui, firme e forte, falando que logo essa distância toda vai se resumir à distância entre quarto e sala de nosso futuro lar. Aí, de uns tempos pra cá, comecei a dar defeito. Tem sido tão, tão difícil estar longe.

Eu sabia que seria difícil, mas nunca pensei que agora, a essa altura do campeonato, eu começaria a surtar. E o que eu posso fazer? Usar comigo mesma os argumentos que venho usando há quase cinco anos para deixá-lo tranquilo? Esse tipo de auto-auto-ajuda funciona? E quando tudo que você mais quer é passar a tarde de domingo abraçada com os amores da sua vida? Como faz?

Bem, juntamente com a ausência da Carol e do pai, o coração em parafuso, a crise profissional, e o desestímulo com o mundo, representou na minha vida uma sequela de um questionamento sério de quem realmente eu era.

Explico: Dia 29 minha princesinha completou seis anos de idade, e eu não estava lá com ela na festinha. Os dias que antecederam essa data foram horríveis, além da TPM gritante que se instalou em mim.

Comecei uma retrospectiva mental que quase me matou. Voltei lá, no dia 29/06/2004. Sabia que o parto era um rito de passagem, sabia que naquele dia 29, eu morreria para nascer outra. Não fui incauta. Recém-nascida como mãe, fiquei sem enxergar direito um mundo tão óbvio. Fiquei sem falar, como quem ainda descobre a fala, fiquei sem chão, como quem ainda não anda. Fiquei só, como só um órfão é capaz de se sentir. E, obviamente, fiquei mãe, descobrindo-me em meus limites e em meu melhor.

A crise trouxe-me muitas questões. Entre elas, o sentimento de que ser mãe é muito mais que “ser mãe moderna” (leia-se, mulheres desesperadas que juntam mil tarefas no seu coração assoberbado e no seu corpo exaurido).

Isso me lembrou uma conversa com a Emília Pimenta, especificamente uma, entre as milhões que tivemos (temos) sobre nossos pequenos, (Meu Deus, quanta saudade!) Estávamos esperando o ônibus depois da aula de francês, e ela se lembrou de uma reportagem sobre uma mulher que foi considerada a pior mãe do mundo por ter deixado o filho de dez anos andar sozinho no metrô. Exagero, ele estava em Londres! Acho que há muitos outros motivos que podem tornar uma mãe ruim, mas não vêm ao caso agora, já que somos mães boas, literalmente falando rs!

Um filho nos faz aparar as arestas, cortar o supérfluo, abandonar o irrisório, jogar no lixo os acúmulos de anos, sejam eles emocionais ou materiais. Desejar o grande e admirar o pequeno. Sonhar diferente.

Quando a Carol nasceu, eu quis me dar um tempo para me descobrir, para nascer como nova mulher. Para nascer ao lado de minha filha. E me dei, estava com ela em todos os momentos, mas já contei isso Aqui.

Muito de mim eu AINDA redescubro seis anos depois, saindo de uma crise. Muito de mim me causa saudade. Muito de mim eu desejo ardentemente. Outro tanto enorme eu descartei.

Minha dúvida era se toda esta “reinauguração” de uma nova pessoa, que se sucede a cada aninho da Carol completado, deveria ser compartilhada em outro espaço, um cantinho só nosso, se deveria permanecer aqui como parte de um todo fractário que se constrói em retalhos, ou se deveria, realmente, sair de cena.

Não, não sei sair de cena, embora não saiba interpretar.

O assunto neste tempo todo não desapareceu, mas eu o senti pessoal demais. Calei, portanto. Medo das pessoas. Justo eu! E meu eu, aquele que grita desesperadamente por mudanças a todo instante, decide:

Diga ao mundo que fico. E volto revigorada desta vez, e mais do que nunca, com muitas, muitas coisas a dizer!

p.s.: Adoro “a troca” com quem sabe quebrar meu silêncio com graça, manda e-mail, faz comentários, ri da desgraça junto comigo, se encanta com a minha forma de viver. Gostaria mesmo de estar pertinho de vocês sempre!

p.s.2: Ainda que emudecida, eu li vocês, discretamente, sem deixar vestígios, mas agora faço questão, já que meus melhores pensamentos são de vocês, amigos.

Beijos meus queridos, obrigada por estarem sempre aqui, nesse espaço em que falo e emudeço. Onde vocês sempre estão, ainda que eu, displicente, “esteja em outro".

8 comentários:

Mayara :) disse...

Meu Deus, quanta saudade de ler vc amiga.

Eu acho que vc nunca, nunca vai conseguir deixar de escrever. Teus texto são transparentes e lindos, maravilhosamnte bem escritos e tão, tão reflexivos. Ah, vc ja sabe, sempre digo isso, mas num tem como, me encanto todas as vezes que venho aqui, saber de ti.

Eu tô morrendo de saudades, amo-te. .

Beijos, May.

Marcela Fernanda disse...

QUE LINDO POST!

Por favor! Não nos deixe de escrever, de falar de você, das coisas boas, das coisas tristes, das preocupações desilusões, e da Carol!! Por favor, nos fale da sua princesinha :)

Amo te ler!!
Beijo gde

Faby disse...

Amiga vc escreve maravilhosamente bem, e nunk deve deixar de fazer tal coisa... É verdade a distância nos mata, e mata aos poucos, mata sentimentos, sejam eles bons ou ruins. Mas fik a torcida que td se resuma na distãncia entre o quarto e a sala da casa de vcs...

Te adoro.

P.S. Contando os dias pra te ver pessoalmente e conversamos, qta saudade disso.

S.R disse...

Carlinha sei q o blog é uma carta que não queríamos mandar. Quantas vezes penso em escrever aquilo q no meu coração lateja, talvez seja íntimo se expor. Mas de repente me lembro que o fiz para cantar meus dias e conversar com meus amigos. Adoro ler seus textos, isso me deixa próxima de vc e vejo o qnto é especial. Admiro sua garra. Bem, a distancia é horrível... Saber esperar é horrível... E bem agora também passo por essa situação... Mas seremos tds fortes... e Não deixe de escrever, por favor... Um grande abraço

Pri Almeida disse...

Já disseram, mas preciso repetir: Você escreve maravilhosamente bem, de forma sensível, pessoal e poética. Deixar de escrever seria bem pior, porque em certo ponto, isto se torna uma necessidade para seres como nós, cheios de inquietações, que precisam desse devaneio. É doído, a vida tbm é feita de silêncios, mas o coração não cala nunca, não é?
Muita luz a você e muita força para suportar a saudade! Beijo grande!

Carlinha Leão disse...

Gente, nem sei como agradecer tanto carinho e tantos elogios.
Vcs me fazem querer continuar.

Beijo em todos, tbm acho q naum sobreviveria sem poder estar com vcs!

FlorBela disse...

Minha querida, que belo texto. Como todos acham. Eu em pouquissimo tempo já me tornei sua fã. Escreves com a alma e o coração. Transparece. Enobrece. Reflete a quem te lê.
Continues, por favor. Vais longe.
Um abraço.

Natty disse...

Carlinha, nem pense novamente na possibilidade de largar este blog. Seus pensamentos são sábios demais, independente de ser amigos ou nada amigáveis.

Já voltei de Brasília e fiz um pequeno relato em meu blog sobre a viagem.
Um beijo e não pense novamente em desfazer disto aqui.